Hoje não escrevi. Não tive condições. Só sinto dor. Dor-lembrança. Dor-ânsia, Dor-passado. Dor-dor. E eu de muito sentir, conviver e reviver a dor aprendi a fazer dela poema.
Menina-criança
Menina
De corpo pequenino
obrigada a ser de
quem lhe roubou
a infância
a boneca
a ilusão da vida
dividida
na miséria
do casebre
ou dos grandes casarões
ou da miséria
desavergonhada
de uma alminha pequena deturpada
de um algoz de corpo
de alma
com cara
com nome
e sem dignidade
Menina
de tantos traços e abraços
cabelos aloirados
negros,
pele inocente
boca sem dente
menina
tomada
em cada esquina
chamada abandono
menina preta, branca
caída de sono
menina rosa lilás
que não sabes nem saberás
porque ele
te escolheu
neste mundo de seu Deus.
Menina preta
branca azul
amarela e vermelha
a sociedade que te desagrega
é a mesma que se acovarda
na hora de te julgar
Culpada-Assassina
Pai,
Mãe,
Tio,
Primo
Menina-criança
Perdida na escuridão
É a menina que padece
É criança ferida no coração
Menina
Forçada a crescer
perdeu a meninice serena
pelas mãos covardes
de uma sociedade
falha
embebida em hipocrisia
que lhe força a conviver com essa lembrança
triste
que em dor pariste
ferindo em flecha
o pequeno
coração…
de menina.
Então disse Jesus: “Deixem vir a mim as crianças e não as impeçam; pois o Reino dos céus pertence aos que são semelhantes a elas”. (Mateus 19:4)
Juliana Maria
19.08.2020
#FiqueEmCasa
Juliana Maria é servidora pública, discente do curso de letras da Universidade do Estado da Bahia, nordestina de coração, alma e espírito, mãe solo, cristã protestante, Líder de Jovens da Primeira Igreja Batista em Euclides da Cunha e nas horas vagas “escrevinhadora”.








Os teus primorosos versos, Juliana, refletem a trágica realidade histórica de tantas crianças vítimas das monstruosidades de seres humanos covardes e de um Estado de Direito, e de uma sociedade omissa perante as dores das crianças. Quando se lê relatos de mães pobres desesperadas que em razão de risco iminente de uma filha ou filho menores, empreende exaustivas peregrinações por órgãos públicos pedindo ajuda e o que encontra é descaso, desrespeito, omissão e até cumplicidade com os crimes de que as crianças são vítimas. Inclusive pedofilia. Um Estado de Direito eficiente justo, competente e comprometido com a Vida Humana elimina esses delitos nas suas raízes. Os teus versos fazem lembrar – e jamais poderemos esquecer – as barbáries hediondas perpetradas contra as crianças órfãs, chamadas jaguncinhos e jaguncinhas apreendidas pelas Forças do Governo na Guerra de Canudos; aí bem próximo do município de Euclides da Cunha. Muitas daquelas meninas, além de terem sido exploradas sexualmente, foram levadas pelos militares para outros estados da federação e transformadas em prostitutas.